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Pororoca seus mistérios e suas lendas

Conceitualmente, a pororoca – “grande estrondo” na língua indígena – é uma onda que ocorre em épocas de grandes marés oceânicas. Tais ondas de água doce formam-se em rios e baías pouco profundas, onde existe uma grande variedade entre a maré alta e a maré baixa.

O vocábulo pororoca vem do tupi pororoka, gerúndio de pororog, que significa “estrondar”. Por pororoca, entende-se o fenômeno do encontro das ondas do mar com as águas da foz de um rio.

Não se pode falar em pororoca sem pensar no rio Amazonas. Esse fenômeno amazônico, tão cheio de lances empolgantes, por muitos anos já foi desafio para os que tentaram explicá-lo.

A maioria das pororocas é pequena, com cerca de meio metro de altura, mas algumas podem atingir até  seis metros de amplitude e com algumas dezenas de metros de comprimento, que se movem rio acima com uma velocidade de 30 quilômetros por hora.

O fenômeno ocorre duas vezes ao dia, de 12 em 12 horas. Assim, se a pororoca – que é uma onda única que avança rio adentro – surgir ao meio dia, por exemplo, ela voltará a aparecer à meia noite.

É uma grande onda arrasadora, com grande estrondo e ímpeto devastador, causando o desmoronamento das margens e carregando consigo árvores, embarcações e outros objetos que se interponham à sua passagem violenta.

A onda ocorre também na foz dos rios Sena, na França (onde é chamada de mascaret), e Ganges, na Índia (conhecida como bore). Em nenhum lugar do mundo, no entanto, o fenômeno é tão intenso como no litoral do Amapá e do Pará, uma área influenciada pelas águas do maior rio do mundo, o Amazonas.

São Domingos – O fenômeno, que ocorre no município de São Domingos do Capim, região nordeste do Estado, e local onde são realizados o XVII Surfe na Pororoca e XV Festival da Pororoca, resulta da elevação súbita das águas junto à foz do rio Amazonas provocada pelo encontro das marés ou de correntes contrárias, como se estas encontrassem um obstáculo que impedisse seu percurso natural.

Quando ultrapassa esse obstáculo, as águas correm rio adentro com uma velocidade de 10 a 15 milhas por hora, subindo a uma altura de três a seis metros. O espetáculo tem duração de 40 minutos, percorrendo, a seguir, 30 km por um período de uma hora e meia.

A pororoca prenuncia também a enchente. Alguns minutos antes de chegar, há uma calmaria, um momento de silêncio. As aves se aquietam e até o vento parece parar de soprar. É ela que se aproxima. Os caboclos já sabem e rapidamente procuram um lugar seguro como enseadas e furos dos rios para aportar suas embarcações, protegendo-se de qualquer dano.

Turismo – Antes vista como um fenômeno temerário, a pororoca ganhou status de atração turística em São Domingos do Capim, município próximo a Castanhal, nordeste do Estado, que se orgulha de ser considerada a “Capital da Pororoca”.

A mudança deve-se ao fato de o fenômeno ter sido descoberto – e divulgado – por surfistas e amantes de esportes radicais, há cerca de 18 anos. O surfe na pororoca ganhou projeção nacional e internacional. O programa “Domingão do Faustão” (TV Globo/TV Liberal) abriu um espaço no programa para mostrar o fenômeno. Vários outros programas, de canais abertos e fechados, como o Caldeirão do Huck, já transmitiram a competição de surfe.

Em São Domingos do Capim, o ápice da pororoca é na ilha do Pico, que fica a 13 km da cidade, já no rio Capim. É o ponto onde se pode assistir ao fenômeno da beira do rio, que começa a aparecer em frente ao rio Bujaru e surge depois em quatro pontos diferentes. O último é o da ilha do Pico, que pode ser avistado do Mirante do Barriga.

Lendas – Além da explicação científica, a pororoca também tem suas lendas. Uma delas versa sobre Mãe d’Água e Tucuxi que querem Jacy de volta. Diz a lenda que, antigamente, a água do rio era serena e corria de mansinho. Nessa época, a Mãe d’Água, mulher do boto Tucuxi, morava com a filha mais velha na ilha de Marajó.

Certa noite, Jacy, a canoa de estimação da família, foi roubada. Remexeram, procuraram e, nada encontrando, a Mãe d’Água chamou seus filhos Repiquete, Correnteza, Rebujo, Remanso, Vazante, Enchente, Preamar, Reponta, Maré Morta e Maré Viva para que achassem a embarcação desaparecida. Mas passaram-se vários anos sem notícia de Jacy. Então, resolveram chamar os parentes mais distantes – Lagos, Lagoas, Igarapés, Rios, Baías, Sangradouros, Enseadas, Angras, Fontes, Golfos, Canais, Estreitos, Córregos e Peraus – para discutir o caso.

Na reunião, resolveram criar a Pororoca, umas três ou quatro ondas fortes que entrassem em todos os lugares, quebrassem, derrubassem, escangalhassem, destruíssem tudo e apanhassem Jacy e o ladrão. Mas até hoje, ninguém sabe de Jacy e a Pororoca segue em frente.

Negrinhos - No Amapá, a população conta a lenda dos três negrinhos. Segundo ela, há muitos anos, uma mãe colocou seus três filhos em uma canoa para que eles fossem à escola, não muito longe de sua casa. No meio do caminho, apareceu uma forte onda, virando a canoa e matando os três irmãos Lin, Nono e Bita. E foi assim que começou o fenômeno da pororoca.  Hoje, acredita-se que, todas as vezes que a onda chega, os três negrinhos vêm em cima dela, causando todo o estrago.

Amor – Dizem que, há muitos anos, às margens do rio Calçoene, havia uma pequena aldeia indígena. Era ali que vivia Ubiraci, que desde que nasceu, fora abençoado por Tupã com o dom de falar com todos os animais.

Um dia, Ubiraci caminhava pela floresta quando descobriu a mais linda indiazinha que seus olhos já tinham visto. Ubiraci, sem saber, havia se apaixonado pela Natureza. O índio passou a procurar sua amada por toda parte. Era tanta a paixão que Ubiraci perdeu o dom que recebeu de Tupã e ele não entendia que a Natureza estava em todo lugar.

Uma noite, Ubiraci avistou a Lua, refletida na água. Imaginou que era naquele mundo que sua amada vivia. Mergulhou no rio, mas quanto mais lutava contra a correnteza, mais parecia que a Lua se afastava dele. Foi tanto o esforço que Ubiraci morreu.

Tupã, compadecido com tanto amor, pediu à Natureza que transformasse Ubiraci em uma árvore, no meio do rio, para que fosse lembrado para sempre. À noite, no entanto, quando a maré subia, a árvore estranhamente se desprendia e formava uma grade onda: a pororoca.

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